Temporada Todos os Mundos em Nós
“Eu sou composta por urgências: minhas alegrias são profundas; minhas tristezas, torrenciais”.
Adélia Prado – Poema Composição
Somos compostos por urgências, como Adélia Prado nos diz. Nossas alegrias profundas e tristezas torrenciais nos levam a explorar quem somos e o que carregamos dentro de nós. Nesta temporada, cada semana é parte do mosaico que revela a intensidade da existência humana — um convite a olharmos para dentro e encontrarmos os mundos que habitam em nós.
A poesia de Adélia Prado inspira esta temporada ao celebrar a intensidade do ser humano, suas pluralidades e o equilíbrio entre profundidade emocional e criatividade. A cada semana, “os mundos” que nos compõem se desdobram no palco, revelando as urgências da existência e a autenticidade de cada expressão artística.
Na primeira semana, somos como o encontro entre a noite e o dia, entre o príncipe e o cisne, como no II ato de O Lago dos Cisnes, de Mario Galizzi; entre o olhar que vê e é visto, como em Cada Olhar, de Henrique Rodovalho, que reflete a necessidade de sermos vistos em nossa singularidade. Enquanto a provocação de be yourself – everyone else is already taken, estreia de Denise Namura e Michel Budgham, ressoa como uma verdade simples e universal: só existe um de nós no vasto mundo.
A segunda semana aprofunda as raízes e amplia as urgências. Somos feitos de memórias ancestrais, de passos de dança que reconstroem histórias e de um desejo de transformar o que já existe. Em Autorretrato, de Leilane Teles, o Brasil ganha vida nos gestos que ressoam livremente obras de Candido Portinari (19031962), enquanto dos SANTOS, de Alex Soares, revisita o passado para iluminar o presente. E com Carlos Pons Guerra, a reciclagem se torna poesia: cada gesto é um renascimento, cada movimento uma metáfora para a sobrevivência e esperança. Na terceira semana, mergulhamos na poesia do intangível. Les Sylphides (Chopiniana), remontada por Ana Botafogo, nos leva a flutuar com sonhos de eras passadas, enquanto Casa Flutuante, de Beatriz Hack, questiona o que significa ter um lugar para chamar de lar — talvez o lar esteja dentro de nós, em nossas urgências e profundidades. Finalmente, com George Céspedes, os desenhos geométricos no palco nos lembram que a vida, apesar de sua precisão, é sempre torrencial em emoção.
Adélia nos ensinou: administrar o provisório é o que fazemos. E nesta temporada, dançamos entre o transitório e o eterno, revelando que todos os mundos do mundo já vivem em nós.
Além das apresentações no Teatro Sérgio Cardoso, esta temporada se expande para outros palcos de grande relevância, levando a dança a novas dimensões e experiências únicas. No Theatro São Pedro, dançaremos a vibrante suíte de O Sonho de Dom Quixote, de Márcia Haydée, acompanhados pela orquestra do Theatro. Nesta obra, a energia e o lirismo da coreografia se encontram com a música ao vivo, criando uma celebração inesquecível de movimento e som. Na Sala São Paulo, a parceria com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) enriquece a temporada com duas obras marcantes. O público será transportado pela magia do II ato de O Lago dos Cisnes, que exalta a beleza da dança clássica, e Aparições, de Ana Catarina Vieira.
Em cada um desses espaços, continuamos a explorar Todos os Mundos em Nós, levando ao público a diversidade e a excelência da dança em diálogo com a música ao vivo, reafirmando nosso compromisso com a arte em sua forma mais plural e emocionante.
Inês Bogéa
Diretora Artística e Executiva – São Paulo Companhia de Dança | Associação Pró-Dança








