Dança em Rede

Terra Companhia de Dança do Rio Grande do Sul

  • Categoria: Companhias Profissionais
  • País de origem: Brasil
  • UF de origem: RS
  • Cidade de origem: Porto Alegre
  • Ano de criação: 1981
  • Responsável: Valerio Cesio
  • Responsável cargo: Coreógrafo residente

Histórico

O fim súbito da Companhia de Dança do Rio Grande do Sul, em maio de 1981 (menos de dois meses após sua criação), fez com que parte de seus ex-integrantes se mobilizasse em torno do surgimento de um novo coletivo em Porto Alegre.

Assim, em meados daquele ano, surgia a Terra Companhia de Dança do Rio Grande do Sul. Com o argentino Valerio Cesio como coreógrafo residente, o grupo teve em sua formação inicial dez bailarinos que integravam na companhia recém-extinta: Carlos L. Rosito, Simonne Roratto, Sayonara Pereira, Heloisa Paz, Eliana Dupuy, Luciana Burgos, Maria José Mesquisa, Carlota Albuquerque, Andréa Druck e Eneida Dreher, que também ocupava o cargo de diretora administrativa.

O novo agrupamento artístico gerou interesse da imprensa local, que produziu reportagem sobre sua criação. Em entrevista ao jornal “Correio do Povo”, Césio comentou sobre a proposta estética pretendida, dizendo que o Grupo Terra buscava a criação de um campo artístico e pedagógico de primeiro nível para o desenvolvimento e difusão de trabalho da maior seriedade e vitalidade, oferecendo obras coreográficas ligadas às problemáticas de nossa época, ao mesmo tempo em que é oferecido também formação de dança o mais completa possível".

Apesar de a companhia ter sido sediada de cara na escola de Eneida, a Simon-Dreher Dance, um dos diferenciais do Terra seria justamente sua independência e a ausência de vínculos com a Associação dos Professores de Dança do Rio Grande do Sul (atual Asgadan). Isso ficou evidente na forte profissionalização buscada desde o início, que resultou na estruturação do coletivo como entidade particular, contando com departamentos jurídico e administrativo, de arquivo, de representação artística, de pesquisa técnica e teórica de dança, de capacitação pedagógica, de cenografia e vestuário, de difusão e de relações públicas.

Nesse primeiro momento, foi preciso reforçar o elenco masculino, já que a formação original contava com apenas um homem. Para sanar o problema, decidiu-se pela criação de um grupo de rapazes bolsistas e, em paralelo, de outro dedicado ao aperfeiçoamento intensivo com foco quase exclusivo em mulheres. Além dos dez integrantes fixos, havia ainda um grupo adjunto de 16 bailarinos que seriam mais tarde incorporados às montagens. Todos tinham carga de trabalho de oito horas diárias.

A primeira apresentação pública do Terra aconteceu em 2 de agosto de 1981, no Auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, em um evento da Campanha do Agasalho, no qual foi exibido “Bachianas nº 5”, com trilha de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Mas foi apenas a partir de novembro que o conjunto passou a praticar o que se transformaria em sua principal marca: as apresentações ao ar livre em locais como ruas, praças, centros sociais, hospitais psiquiátricos e penitenciárias.

Era o projeto "Dança para todos, cultura para a comunidade", que buscava aproximar a dança daqueles que não tinham contato habitual com ela. Essa proposta fez com que a companhia adotasse um repertório abrangente, mesclando coreografias mais leves, com músicas populares – apropriadas para esse tipo de espaço – e outras de caráter mais intimista. Figurinos, iluminação e sonoplastia também eram adaptados de acordo com as limitações de cada novo espaço que virava palco das apresentações. Com essa iniciativa, o grupo calculou ter atingido mais de cem mil pessoas.

A estreia oficial do Terra se deu apenas em 29 e 30 de dezembro de 1981 com as estreias de "Building Clown", com música de Astor Piazzola, e "Essas Canções", criada a partir de composições de Mercedes Sosa, que se apresentaria ao vivo com o grupo em maio de 1982.

O início desse novo ano foi marcado pelo projeto “Para os olhos nas tardes de domingo”, que, com apoio das lojas Renner, organizou apresentações gratuitas, ao ar livre, durante os três últimos domingos de janeiro, nos parques Moinhos de Vento, Marinha do Brasil e Farroupilha, com público estimado de 30 mil pessoas.

Nos meses seguintes, por opção dos bailarinos, o cachê das apresentações foi remanejado para ajudar na reconstrução do Theatro São Pedro, que seria reaberto apenas em 1984 após nove anos de obras.

Em julho de 1982, o Terra se tornou o único grupo sul-americano e o primeiro brasileiro a participar do Festival Internacional de Dança de Colônia, na Alemanha Ocidental, para onde levou o mesmo "Carmina Burana" que havia estreado no ano anterior com a então Companhia de Dança do Rio Grande do Sul. O episódio rendeu novos convites internacionais: um para um festival na Itália, outro para um retorno ao festival alemão, ambos a serem concretizados no ano seguinte.

De volta ao Brasil, o grupo gravou uma nova abertura do “Jornal do Almoço”, exibido pela emissora RBS, o que lhe conferiu ainda mais popularidade. Pouco tempo depois, o Terra viveu um de seus momentos de maior ousadia com a estreia de “A Trilogia”, formada por três peças de Carl Orff, cada uma apresentada em um fim de semana de outubro: "Carmina Burana", "Catulli Carmina" e "Os Triunfos de Afrodite". Essa última peça se tornou um marco por trazer bailarinas com seios à mostra e escalar para o papel de “pecado capital” uma jiboia de 2,10 m que interagia com Eneida Dreher, então na pele de Afrodite.

Os últimos meses de 1982 foram marcados por turnês por capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e pelo interior do Rio Grande do Sul. Em dezembro, o grupo celebrou sua 150ª apresentação com um espetáculo no Estádio Olímpico que marcava a chegada do Papai Noel da RBS. Também nesse mês foram realizados os primeiros testes de seleção para novos bailarinos, estagiários e bolsistas.

O Terra continuou a estrear espetáculos e fazer turnês no ano de 1983, mas começou a perder força a partir de julho, quando retornou de uma viagem internacional e se deparou com a falta de sede própria.

Em 1984, Valerio Cesio abandonou o grupo, que prosseguiu por um tempo, mas logo se extinguiu, em setembro, por falta de apoio do governo e de patrocinadores. Desse fim saíram sementes de outros conjuntos, sendo a Terpsí Teatro de Dança um de seus principais frutos.

Em pouco mais de três anos de atividades, a Terra Companhia de Dança do Rio Grande do Sul realizou 431 apresentações nacionais e internacionais."

Bibliografia

CUNHA, Morgada e FRANCK, Cecy. Dança: nossos artífices. Porto Alegre: Movimento, 2004.

CAMPUOCO, Antônio de. Grupo Terra e seus planos de implantação estável. Correio do Povo, Porto Alegre, 21 out. 1981. Dança

STRACK, Míriam Mederios e VALLE, Flavia Pilla do. Registros da Dança: A Trajetória do Grupo Terra (p. 275-285) in Revista de iniciação científica da Ulbra 2009/2010. Canoas, 2010.

TRINDADE, Ana Lígia. Do Terra ao Gaia: da Esquina democrática ao Flashmob Dance na memória artístico-cultural da dança em Porto Alegre. Porto Alegre: Cesar Gonçalves Larcen Editor, 2013.

(por Amanda Queirós | Pesquisa SPCD)

Trabalhos

- Bachianas no 5" (1981), com música de Heitor Villa-Lobos

- "Carmina Burana" (1981), com música de Carl Orff

- "Blue" (1981), com música de John Lennon

- "Building Clown" (1981), com música de Astor Piazzolla
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